Estrutura e desigualdade social.

A estrutura social e as desigualdades sociais

Podemos observar os sinais das desigualdades sociais em todos os lugares, todos os dias. Basta sair às ruas para notar as diferenças entre as condições de vida das pessoas e verificar que um pequeno número delas desfruta de muitos privilégios. Estas diferenças de manifestam em elementos materiais, como a moradia, as roupas, os meios de locomoção, mas também no acesso à educação e aos bens culturais. Por que existem as desigualdades sociais e quais são as formas existentes? Como elas se constituíram e como são explicadas?

I) Estratificação social: É a maneira como os diferentes indivíduos e grupos são classificados em estratos (camadas) ou classes sociais.

Uma estratificação não pode estar baseada em apenas um critério (a renda ou a ocupação), pois isto não corresponde à realidade social. Há, portanto, dois tipos de critérios de estratificação:

- quantitativos: como o nível da renda.

- qualitativos, que são de dois tipos: objetivos (posse de bens, trabalho, atividade) e avaliações subjetivas (prestígio, honra, importância social)

A estratificação social é produzida historicamente e se expressa na organização da sociedade em sistemas de estamentos, castas ou classes.

a) Estamentos: Divisão através de direitos e deveres, privilégios e obrigações que são aceitos como naturais e publicamente reconhecidos. A sociedade feudal foi um exemplo típico, em que havia remotas possibilidades de mobilidade social. A desigualdade, além de fato natural, transformava-se em direito.

b) Castas: Hierarquização baseada em religião, etnia, cor, hereditariedade e ocupação. Vigora na Índia, embora seja proibida por lei desde 1950. Trata-se de uma camada social fechada, pois não permite mobilidade social.

Brâmanes
(sacerdotes e mestres da erudição sacra)

* Os párias, também chamados de intocáveis, são completamente marginalizados e estão fora da pirâmide social indiana. Considerados impuros, inspiram repugnância e desprezo às demais castas.

c) Classes sociais: Modalidade de estratificação social típica do capitalismo.  Camada social aberta, pois permite mobilidade social. Variam considerando a posição dos indivíduos e grupos no processo de produção (proprietários de terra, burguesia industrial ou financeira, pequena burguesia ou média, trabalhadores e operários) ou a capacidade de consumo (classe A, B, C, D, E).

  • Classe alta: Dirigentes superiores e pessoas de situação econômica privilegiada;
  • Classe média: Pessoas de situação econômica intermediária como profissionais liberais – médicos, advogados, professores etc.
  • Classe baixa: Pessoas de nível econômico baixo.

OBS: Dentro de cada classe há diversas camadas, além de grupos intermediários entre uma classe e outra.

II) Mobilidade social: possibilidade de um indivíduo ou grupo modificar sua posição social numa determinada sociedade. A mobilidade implica uma mudança de papel social, função social, atividade econômica, poder político e econômico.

a) A mobilidade vertical implica mudança de status social, uma vez que o indivíduo pode ganhar ou perder prestígio na sociedade. Em outras palavras, ele pode subir ou descer na escala de importância social.

  • Ocorre mobilidade social vertical ascendente (ou ascensão social) quando o indivíduo melhora sua posição no sistema de estratificação social (por exemplo: empresário que inicia um pequeno negócio e consegue, ao longo dos anos, torná-lo uma grande empresa);
  • Ocorre mobilidade social vertical descendente (ou queda social) quando o indivíduo piora sua posição no sistema de estratificação social (por exemplo: grande empresário cujo negócio vai à falência).

b) A mobilidade horizontal ocorre na mesma classe, não implicando mudança de status social (por exemplo: profissional que muda de emprego, mas não obtem melhoria salarial significativa).

III) Indicadores sociais: Como o próprio nome sugere, indicadores são uma espécie de “sinalizadores” que buscam expressar algum aspecto da realidade sob uma forma que se possa observar e mensurar. Os indicadores descrevem a realidade em números e gráficos para orientar políticas públicas e investimentos nesta ou naquela área. No Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é o órgão oficial responsável pela produção das estatísticas que compõem o sistema de Indicadores Sociais. A seguir, alguns exemplos:

a) Índice de Gini: Também conhecido como Coeficiente de Gini, mede a desigualdade de renda da população. Varia entre 0 (quando não há desigualdade) e 1 (desigualdade máxima).

BRASIL
Ano Índice de Gini
1960 0,543
1970 0,582
1979 0,590
1990 0,609
2001 0,595
2008 0,544

b) Proporção de pobres na população: Expressa a quantidade relativa de pessoas pobres numa determinada população.

BRASIL
Ano Pobres (%)
1970 68,4%
(61 milhões de pobres)
1980 35,3%
1990 30,6%
1995 20,6%
2001 21,7%
2007 14,1%
(25,5 milhões de pobres)

Causas para o declínio da proporção de pobres no Brasil:

  • Política da valorização do salário-mínimo: atualmente o valor do salário-mínimo é de R$ 465,00. Em 2010, chega a R$ 506,00;
  • Programas de transferência de renda (por exemplo: Bolsa-família)[1];

O Programa Bolsa Família (PBF) é um programa de transferência direta de renda com condicionalidades[2], que beneficia famílias em situação de pobreza (com renda mensal por pessoa de R$ 70 a R$ 140) e extrema pobreza (com renda mensal por pessoa de até R$ 70). O valor do benefício varia de R$ 22,00 a R$ 200,00.

  • Controle da inflação: especialmente após o Plano Real (1995).

c) Expectativa de vida ao nascer: Número médio de anos esperados para que um recém-nascido viva, em determinado ano.

BRASIL
1970 52,7 anos
2007 72,7 anos

d) Taxa de analfabetismo: Percentual de pessoas com 15 e mais anos de idade que não sabem ler e escrever pelo menos um bilhete simples, no idioma que conhecem, na população total residente da mesma faixa etária, em determinado espaço geográfico, no ano considerado.

BRASIL
Ano Analfabetos (%)
1970 33,6%
1980 25,5%
1991 20,1%
2000 13,6%
2007 10,0%

e) Indicador de analfabetismo funcional (INAF): Mede os níveis de analfabetismo funcional da população brasileira adulta, oferecendo informações sobre as habilidades e práticas de leitura, escrita e matemática dos brasileiros entre 15 e 64 anos de idade. Em 2007, 68% da população brasileira era alfabetizada funcionalmente.

* Alfabetismo funcional: É considerada alfabetizada funcional a pessoa capaz de utilizar a leitura e escrita e habilidades matemáticas para fazer frente às demandas de seu contexto social e utiliza-las para continuar aprendendo e se desenvolvendo ao longo da vida.

f) Índice de Desenvolvimento Humano (IDH): Envolve as médias das metas alcançadas num país em três dimensões básicas de desenvolvimento humano:

  • Vida longa e saudável (longevidade): expectativa de vida ao nascer;
  • Acesso à educação;
  • Rendimento: produto interno bruto (PIB) per capita em poder de paridade de compra (em dólares).

OBS: Muito elevado desenvolvimento humano: 0,900 a 1.

Elevado desenvolvimento humano: 0,800 a 0,900.

Médio desenvolvimento humano: 0,500 a 0,800.

Baixo desenvolvimento humano: até 0,500.

Ranking do IDH (com base em dados de 2007)

Posição País IDH
Noruega 0,971
Austrália 0,970
Islândia 0,969
Canadá 0,966
Irlanda 0,965
Holanda 0,964
Suécia 0,963
França 0,961
Suíça 0,960
10º Japão 0,960
75º Brasil 0,813

IV) Pobreza e Desigualdade Social

A pobreza é a expressão mais visível das desigualdades em nosso cotidiano. No período medieval o pobre era um personagem complementar ao rico. Não eram os critérios econômicos ou sociais que definiam a pobreza, mas a condição de nascença, como afirmava a Igreja Católica. Havia uma visão positiva da pobreza, pois esta despertava a caridade e a compaixão. De acordo com essa visão cristã de mundo, os ricos tinham a obrigação moral de ajudar os pobres. Outra explicação, corrente no mesmo período, atribuía à pobreza a uma desgraça decorrente das guerras ou de adversidades como doenças e deformidades físicas.

A partir do século XVI, quando o indivíduo se tornou o centro das atenções, a pobreza se tornou um perigo para a sociedade. Sendo uma ameaça social, era preciso disciplina e enquadramento. O Estado “herdou” a função de cuidar dos pobres, antes atribuída aos ricos.

Com o crescimento da produção e do comércio, e a necessidade de mão de obra, a pobreza e a miséria foram interpretadas como resultado de preguiça e indolência dos indivíduos que não queriam trabalhar, uma vez que haviam muitas oportunidades de emprego.

Na sociedade moderna, a desigualdade assume o caráter de privilégio de alguns e injustiça para com outros. A diferenciação, oposição e concorrência entre grupos sociais acabou criando mecanismos de apropriação e monopólio dos bens econômicos e sociais, gerando concentração de renda. É em meio à sociedade da abundância que a pobreza adquire um caráter contraditório e até paradoxal.

No entanto, a pobreza tem um caráter relativo e passa a existir por outros processos societários. John Friedmann e Leonie Sandercock, em Os desvalidos, identificam três formas de pobreza, além da clássica carência de bens materiais e de recursos à sobrevivência:

Despossessão psicológica: sentimento de autodesvalorização das populações pobres em relação às ricas;

Despossessão social: impossibilidade de ter acesso aos mecanismos de êxito social, de atingir prestígio e manter relações sociais estruturadas e permanentes;

Despossessão política: incapacidade de certos grupos ter qualquer participação efetiva na vida pública ou acesso aos mecanismos de interferência e ação política.

Atualmente aparece mais um tipo de pobreza, a tecnológica, uma vez que pessoas não possuem “alfabetização digital”, estão excluídas dos diferentes espaços e da comunicação globalizada.

V) Desigualdades Sociais no Brasil

Analisando historicamente a questão das desigualdades no Brasil, percebe-se que com a chegada dos portugueses, os povos indígenas que habitavam o continente foram vistos como seres exóticos, não dotados de alma. Posteriormente, houve a introdução do escravo negro, que teve que enfrentar condições terríveis de trabalho e vida no Brasil. De meados do século XIX, até o início do século XX, incentivou-se a vinda de imigrantes europeus, que encontraram condições semiservis nas lavouras do café. Com a industrialização e a urbanização da sociedade brasileira, criou-se um proletariado industrial e diversos outros trabalhadores foram surgindo: pequenos comerciantes, trabalhadores da construção civil, empregados domésticos, vendedores ambulantes. Como nem toda força de trabalho foi absorvida, constitui-se uma massa de desempregados e semi-ocupados que viviam à margem do sistema produtivo capitalista.

Alem das desigualdades entre as classes sociais, há outras diferenças, entre homens e mulheres e entre negros e brancos, por exemplo. As desigualdades, no Brasil, não se traduzem apenas em fome e miséria, mas também em condições precárias de saúde, habitação, educação, enfim, em uma situação desumana.

Referências bibliográficas:

Brym, Robert [et al.]. Sociologia: sua bússola para um novo mundo. São Paulo: Cengage Learning, 2008.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Estimativa da população brasileira (POPCLOCK). Disponível online: [http://www.ibge.gov.br]. Acesso em 07 mar 2010.
Instituto Paulo Montenegro. Indicador de Analfabetismo Funcional. Disponível online:

[http://www.ipm.org.br/ipmb_pagina.php?mpg=4.02.00.00.00&ver=por]

Acesso em 09 set 2009

Jornal “O Globo”. Edição de 23/08/2009. Seção Economia (pp. 29-32).

Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Disponível online: [http://www.mds.gov.br] Acesso em 09 set 2009

Oliveira, Pérsio Santos de. Introdução à sociologia. 4. ed. São Paulo: Ática, 1991.

Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) – seção brasileira. Desenvolvimento Humano e IDH. Disponível online: [http://www.pnud.org.br/idh/] Acesso em 05 mar 2010.

TOMAZI, Nelson Dacio. “A estrutura social e as desigualdades”. In: Sociologia para o Ensino Médio. São Paulo, Atual Editora, 2007.


[1] Mais informações no site do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (http://www.mds.gov.br/).

[2] As condicionalidades são os compromissos nas áreas da Educação, da Saúde e Assistência Social assumidos pelas famílias e que precisam ser cumpridos para que elas continuem a receber o benefício do Bolsa Família.

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2 Respostas para “Estrutura e desigualdade social.

  1. Parabéns pelo texto!!
    Entendi perfeitamente. Ele contém informações que eu desconhecia.
    Muito bem redigido também.
    Parabéns de verdade!!!!!!!

  2. extrarordinario, é um texto exelente.

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